segunda-feira, 3 de abril de 2017

EM DEFESA DOS ESQUECIDOS


"Na França eu sou considerado um artista; na Alemanha, um cineasta; na Inglaterra, um autor de filmes de gênero; nos Estados Unidos, um vagabundo" – John Carpenter.

Uma parte significativa das mais altas conquistas da sétima arte proveio dos filmes de terror, em especial no que diz respeito a fotografia, efeitos sonoros, iluminação, movimentação de câmera e montagem. Uma quantidade gigantesca dos mais inventivos prodígios registrados em imagem e som para fins de pura diversão (o que talvez seja a mais autêntica forma de arte) está em filmes trash, de kunf fu, em faroestes e comédias non-sense. Contudo, muitas dessas obras que representam o ápice da imaginação humana, transbordantes de paixão e explosivas em criatividade, nunca ganham prêmios importantes e raramente constam em mais do que breves notas nos livros de História do Cinema.

Os westerns e os “filmes de gênero”, em sua ingenuidade prodigiosa e em sua negligenciada genialidade, à semelhança das crianças super-dotadas que não se importam com outra coisa que não seja o profundo prazer mental-sensorial oriundo da resolução de seus puzzles complexos, anonimamente fazem mais pelo Cinema do que qualquer movimento artístico autoproclamado como tal (vide Nouvelle Vague, por exemplo). Isso ocorre porque aqueles fazem arte pela arte, por genuína paixão, enquanto estes fazem arte preocupados em mostrar que fazem arte.

Na literatura, fenômenos similares acontecem. Para não aborrecer quem lê este texto com quilométricas explicações genéricas de conteúdo meramente teórico, apresento um caso que, conquanto pontual, é mais do que suficiente para os fins pretendidos: pouca gente sabe, mas o maior escritor de todos os tempos (leia: Guimarães Rosa) era admirador de Lovecraft, e seus primeiros escritos, quase esquecidos até mesmo pela crítica séria (embora sejam tão bons quanto os posteriores), abordavam terror, suspense, mistério e fantasia com grande influência de Poe, Lovecraft, LeFanu, Stoker e Walpole.

O terror, o grotesco, o macabro e até algumas manifestações do fantástico, mesmo quando demandam domínio de algumas das técnicas mais refinadas da construção narrativa, além exigirem habilidade e coragem enormes para que, inovando com qualidade, o artista possa abrir novas portas para a vastidão infindável das potencialidades humanas, frequentemente são desprezados e esquecidos pelo conservadorismo oculto que movimenta a vaidade dos críticos e pelo espírito engessado da maioria dos teóricos.

Seja como for, uma pessoa que não reconhece ao menos os méritos estéticos de Dario Argento, Mario Bava e Brian De Palma, ou a engenhosidade escatológica de um Braindead, por exemplo, está atestando, sem possibilidade de prova em contrário, uma absoluta ignorância da essência da arte cinematográfica – e eu só consigo sentir pena dessa pessoa.

3 comentários:

  1. É verdade Gustavo, uma pessoa que por algum motivo,seja lá qual for não reconhecer Braindead, Brian de Palma, Mario Bava, Dario Argento, dentre outros nomes que agora me fogem da memória, simplesmente é de sentir pena. E quanto ao majestoso Guimarães rosa ser admirador de Lovecraft não é novidade, pelo menos para mim. O que é de qualidade é para ser admirado. Sendo assim nada mais sensato que, Guimarães rosa ser admirador de Lovecraft. Eu também admiro por demais os escritos de Lovecraft. Forte abraço Gustavo!

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    1. Acho que o fato de muita gente (de bom gosto, até) não reconhecer as obras-primas do terror decorre da própria natureza do gênero. O terror e o horror buscam, por definição, aquelas coisas que são estranhas, obscuras, assustadoras e até repulsivas. Muitas pessoas se sentem tão intimidadas com isso que acabam não conseguindo se dispor a encontrar a beleza oculta que reside em obras como Prelúdio para Matar, por exemplo. Aí, julgam-nas inferiores.

      Abração!

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  2. Acho que o fato de muita gente (de bom gosto, até) não reconhecer as obras-primas do terror decorre da própria natureza do gênero. O terror e o horror buscam, por definição, aquelas coisas que são estranhas, obscuras, assustadoras e até repulsivas. Muitas pessoas se sentem tão intimidadas com isso que acabam não conseguindo se dispor a encontrar a beleza oculta que reside em obras como Prelúdio para Matar, por exemplo. Aí, julgam-nas como inferiores.

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