sábado, 8 de julho de 2017

POR QUE SONHAR? POR QUE A ARTE?


“Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação” – André Breton, em “O Manifesto do Surrealismo” (1924).

Todo indivíduo humano, necessariamente, sonha. Mesmo o mais frio e objetivo dos homens, em algum ponto de seu dia, sem a sua permissão, terá sua mente invadida por fluxos estranhos de imagens aleatórias, frequentemente bizarras, quase sempre sem explicação ou sequer lastro na realidade.

A pessoa mais calculista flagra-se, sem saber por que, devaneando com carneirinhos radioativos revolvendo-se em nuvens que devoram a si mesmas. O judicioso pai de família, quando fecha os olhos, encontra tratores desgovernados atropelando cadeiras de roda enferrujadas atrás de suas pálpebras. O engenheiro experiente, o advogado respeitado, o empresário probo, o economista racional, o padre ou pastor de qualquer credo: todos eles, quando põem a cabeça sobre o travesseiro, ou mesmo antes disso, veem pulular no interior de seus crânios vídeos fragmentários a que não deram causa e, com eles, imaginam anões esfaqueando mulheres grávidas, parentes há muito falecidos falando de trás para frente, pessoas olhando fixamente para quadros vazios; imaginam a si mesmos andando nus em situações corriqueiras; imaginam restaurantes lotados cujos garçons não lhes servem comida; imaginam chuvas de relógios quebrados, mulheres chupando dedos de mãos decepadas, carrascos sem rostos acorrentando-os em macas de cimento áspero, gargantas cortadas a estiletes, caixões fendidos dos quais escapam demônios vaporosos e coisas mil vezes mais estranhas, mundos mil vezes mais incongruentes, que o sonhador nunca compartilhará com ninguém, nem mesmo com o pai, com o melhor amigo ou com o amante.

Sonhar é uma necessidade humana básica, assim como respirar, se alimentar e amar. Pessimistas diriam que precisamos sonhar para conseguir suportar a realidade, mas essa não é a verdade (pelo menos não a verdade completa). Sonhamos – ou melhor: somos obrigados a sonhar – para conseguir compreender a realidade.
Nossos canais de percepção do mundo que nos circunda são limitados. Nossos olhos não enxergam em 360º, nossas narinas não captam aromas fora do raio de alguns poucos metros, nossos ouvidos deixam escapar incontáveis frequências de som e camadas sobrepostas de áudios simultâneos. O cérebro, para completar esses dados parciais, precisa incrementá-los com a imaginação, e o faz a todo instante, de modo instantâneo, automático, misterioso. Involuntário como o bater de um coração.

Sonhos, em sentido amplo, existem para nos forçar a entrar em contato com a realidade e para sermos instigados a investigá-la. Se nossa mente subconsciente é capaz de compreender nossa linguagem escrita e falada, por que, então, ela se comunica com a gente por meio das metáforas sensoriais absurdas que são os sonhos? Por que ela simplesmente não traz seus significados por meio da mesma linguagem que usamos no dia-a-dia? Por que, ao invés de dizer “você está angustiado, faça alguma coisa para mudar isso!”, ela prefere nos trazer imagens em preto-e-branco de homens encapuzados, de versões indefesas de nós mesmos enterradas vivas com a boca vendada e os braços atados, de pessoas se transformando em insetos kafkianos? A resposta que vislumbro está em três fatores inter-relacionados: (1) a linguagem humana é limitada, notavelmente insuficiente para todas as infinitas nuances de sensações, emoções e pensamentos que governam nossas vidas; (2) ainda que abstrata, a estrutura de nosso subconsciente, que vem se moldando gradativamente durante milênios, passou a maior parte de sua evolução em uma fase pré-verbal e infra-lógica da nossa existência – e, mesmo assim, foi bem-sucedida em nos manter vivos (em manter viva a si mesma, no final das contas); (3) o cérebro sabe que é melhor ensinar a pescar do que entregar o peixe: o subconsciente quer que pensemos com atenção nas mensagens que ele nos transmite (trata-se de uma condição de sobrevivência, e consciência e inconsciência convivem em simbiose necessária, apesar do aparente antagonismo entre elas). Por isso, a mente vem se desenvolvendo de tal maneira que percorre o caminho mais eficiente para nos fazer pensar com profundidade a seu respeito, e esse caminho não é o do significado-imediato, mas o do significado-que-deve-ser-conquistado, o do sentido que se esconde em metáforas, charadas, mistérios, enigmas, pictogramas confusos e verdades metacifradas. Percorrer analiticamente esses meandros é perscrutar nuances mais sensíveis da alma, significados mais profundos do espírito, trilhas interiores mais obscuras, as quais a língua, falada ou escrita, ainda não é capaz de divisar ou desbravar. É a zona abissal, potencialmente ilimitada, do nosso ser.

Sintetizo esses motivos em um único postulado: a mente subconsciente é fundamentalmente honesta consigo mesma e não se mascara com as linguagens e moralidades pretensamente racionais que usamos para guiar nossas vidas.

“Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares”, proclama André Breton n`O Manifesto do Surrealismo.
E não só indivíduos sonham. Entidades também o fazem.

De noite, quando as sombras caem e a escuridão descansa no leito da realidade, a atmosfera se transforma: os desejos mais inconfessáveis se apoderam de corpos que, até então, eram guiados pelas rédeas curtas das instituições e das convenções sociais; perversões indizíveis se manifestam nos espíritos que adormeciam durante o dia. O mundo se torna um carnaval obscuro de animalidades extravagantes. A sociedade também precisa sonhar.

Com não pouca frequência, quando acessamos o facebook, esse ambiente digital, guiado por códigos binários e algoritmos totalmente objetivos, se parece menos com uma praça de interação social do que com um legítimo delírio vaporwave. Entorpecidos, por um momento nos sentimos livres – ainda que estejamos cada vez mais escravos: é, novamente, a sociedade sonhando, desta vez em meio virtual. É o zeitgeist do inconsciente coletivo se criando e se retroalimentando.

Das incontáveis sociedades que nos antecederam, permanecem os mitos, religiosos ou não: são seus sonhos coletivos. Verdades latentes que subsistem acobertadas pelos adornos crípticos de fábulas absurdas.

E é aí que está a função da arte: a verdadeira Arte, em diferença ao mero entretenimento fugaz, que serve para nos fazer sonhar para dormir, é aquela que nos faz sonhar para acordar.

3 comentários:

  1. Que texto maravilhoso Gustavo! Parabéns. É admirável a sua facilidade e competência com as palavras. As mesmas em contato com o seu ser se tornam ferramentas poderosas para nos guiar em prol da arte e também da literatura, de um modo geral. Eu costumo dizer que, a mente humana é limitadíssima, somos criaturas descrentes que, duvidam de tudo e de todos. Duvidamos até mesmo de nós mesmos. Duvidamos de onde e como viemos parar nesse planeta chamado Terra. Duvidamos se, existe um Deus, ou um Criador, uma força superior que criou a humanidade e o Universo. Eu, acredito piamente que, essas dúvidas que a humanidade carrega é gerada principalmente pela nossa mente muito limitada. Certamente nosso cérebro é um instrumento poderosíssimo, no entanto ele é eficaz somente no mundo real em que vivemos, ou seja o planeta Terra. Ao sairmos de nossa "zona de conforto" aí deparamos com o desconhecido e, então vemos a vulnerabilidade de nossa mente e de nós mesmos perante o infinito. Eu pasmei com seu texto cara. Valeu e um abração!

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  2. Ah, complementando. Eu acredito que, a imaginação de todo e qualquer mortal é o resultado de nossa mente do que ela sabe do desconhecido, ou seja, tudo o que imaginamos ou sonhamos é o que existe em um mundo paralelo, em outra dimensão desconhecida para o homem. Mas, essa realidade paralela existe, por isso imaginamos coisas às vezes sem pé e nem cabeça para nossa realidade palpável, tão medíocre e super limitada. Valeu!

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    1. Certa vez ouvi uma frase da qual eu não esqueço, embora eu não consiga recordar onde ou de quem eu a ouvi: "de tudo o que há no universo para ser conhecido, a última coisa que vamos compreender por completo é a mente humana".

      Abração!

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